quarta-feira, 17 de agosto de 2016

SONATA AO LUAR


Quem de nós não teve um momento de extremada dor?
Quem nunca sentiu, em algum momento da vida, vontade de desistir?
Quem ainda não se sentiu só, extremamente só, e teve a sensação de ter perdido o endereço da esperança!
Nem mesmo as pessoas famosas, ricas, importantes, estão isentas de terem seus momentos de solidão e profunda amargura...
Foi o que ocorreu com um dos mais reconhecidos compositores de todos os tempos, chamado Ludwig Van Beethoven, que nasceu no ano de 1770 em Bonn, Alemanha, e faleceu em 1827, em Viena, na Áustria.
Beethoven vivia um desses dias tristes, sem brilho e sem luz. Estava muito abatido pelo falecimento de um príncipe da Alemanha, que era como um pai para ele.
O jovem compositor sofria de grande carência afetiva. O pai era um alcoólatra contumaz e o agredia fisicamente. Faleceu na rua, por causa do alcoolismo.
Sua mãe morreu muito jovem. Seu irmão biológico nunca o ajudou em nada, e, além disso, cobrava-lhe aluguel da casa onde morava.
A tudo isto soma-se o fato de sua doença agravar-se. Sintomas de surdez começavam a perturbá-lo, ao ponto de deixá-lo nervoso e irritado.
Beethoven somente podia escutar usando uma espécie de trombone acústico no ouvido, o que seria para nós, hoje, um tipo de aparelho auditivo.
Ele carregava sempre consigo uma tábua ou um caderno, para que as pessoas escrevessem suas idéias e pudessem se comunicar, mas elas não tinham paciência para isto, nem para ler seus lábios.
Notando que ninguém o entendia nem o queriam ajudar, Ludwig se retraiu e se isolou. Por isso conquistou a fama de misantropo.
Foi por todas essas razões que o compositor caiu em profunda depressão. Chegou a redigir um testamento dizendo que ia se suicidar.
Mas como nenhum filho de Deus está esquecido, vem a ajuda espiritual através de uma moça cega, que lhe fala quase gritando.
Ela morava na mesma pensão pobre, para onde Beethoven havia se mudado, e daria tudo para enxergar uma noite de luar...
Ao ouvi-la Beethoven se emociona até as lágrimas...
Afinal, ele podia ver! Ele podia escrever sua arte nas pautas...
A vontade de viver volta-lhe renovada e ele compõe uma das músicas mais belas da humanidade: Sonata ao luar.
No seu tema, a melodia imita os passos vagarosos de algumas pessoas. Possivelmente os dele e os dos outros que levavam o caixão mortuário do príncipe, seu protetor.
Olhando para o céu prateado de luar, e lembrando da moça cega, como a perguntar o porquê da morte daquele mecenas tão querido, ele se deixa mergulhar num momento de profunda meditação transcendental...
Alguns estudiosos de música dizem que as três notas que se repetem insistentemente no tema principal do 1º movimento da Sonata, são as três sílabas da palavra por quê? ou outra palavra sinônima, em alemão.
Anos depois de ter superado o sofrimento, viria o incomparável Hino à alegria, da 9ª sinfonia, que coroa a missão desse notável compositor, já totalmente surdo.
Hino à alegria expressa a sua gratidão à vida e a Deus por não haver se suicidado.
Tudo graças àquela moça cega que lhe inspirou o desejo de traduzir, em notas musicais, uma noite de luar...
Usando sua sensibilidade Beethoven retratou, através da melodia, a beleza de uma noite banhada pelas claridades da lua, para alguém que não podia ver com os olhos físicos...

A música desperta na alma impressões de arte e de beleza que são o júbilo e a recompensa dos espíritos puros, uma participação na vida divina em seus deleites e seus êxtases.
A música, melhor do que a palavra representa o movimento, que é uma das leis da vida; por isso ela é a própria voz do mundo superior.
Porém, unida a palavras malsãs, a música não é mais do que um instrumento de perversão, um veículo de torpeza que precipita a alma nas baixas sensualidades, corrompendo os costumes.

Pense nisso, e busque alimentar sua alma com melodias que expressem arte e beleza, que falem do bom e do belo.

(Redação do Momento Espírita)

quinta-feira, 26 de maio de 2016

A VISITA DA VERDADE



Numa caverna escura, onde a claridade nunca surgira, vivia um homem muito simples que implorava o socorro Divino.
Declarava-se o mais infeliz dos homens, não obstante, em sua cegueira moral, sentia-se o melhor de todos.
Reclamava do ambiente fétido em que se encontrava.
O ar pestilento o sufocava.
Pedia a Deus uma porta libertadora que o conduzisse ao convívio do dia claro.
Afirmava-se robusto, apto, capaz.
Por que motivo era conservado ali, naquele insulamento doloroso, em atmosfera tão insuportável?
Suas súplicas, entre a revolta e a amargura, foram percebidas por Deus que, profundamente compadecido, enviou-lhe a fé.
A sublime virtude exortou-o a confiar no futuro e a persistir na oração.
O infeliz consolou-se mas, logo em seguida, voltou a lamuriar-se.
Queria fugir, desistir, abandonar a vida, e como suas lágrimas aumentavam, Deus mandou-lhe a esperança.
A emissária Divina afagou-lhe a fronte e falou-lhe da eternidade da vida, buscando secar-lhe o pranto desesperado.
Rogou-lhe calma, resignação e fortaleza.
O pobre homem pareceu melhorar, mas, decorrido algum tempo, voltou à lamentação.
Comovido, o Senhor da Vida determinou que a caridade o procurasse.
A nova mensageira acariciou-o e alimentou-o.
Endereçou-lhe palavras de carinho e amparou-o, como se fosse abnegada mãe.
Todavia, o infeliz persistia gritando, revoltado.
Foi então que Deus enviou-lhe a verdade.
Quando a portadora do esclarecimento se fez sentir na forma de uma grande luz, o infortunado, pela primeira vez na vida, viu-se tal qual era e apavorou-se.
Seu corpo estava coberto de chagas, da cabeça aos pés.
Agora, somente agora, ele percebia, espantado, que ele mesmo era o responsável pela atmosfera intolerável em que vivia.
Tremeu cambaleante e horrorizou-se de si mesmo.
Sem coragem de encarar a sublime visitante que lhe abria a porta da libertação, fugiu apavorado, em busca de outra furna onde conseguisse esconder a própria miséria que só então reconhecia.
Assim ocorre com a maioria dos homens perante a realidade.
Sentem-se com direito a receber todas as bênçãos do Pai Eterno e gritam fortemente, implorando a ajuda celestial.
Enquanto amparados pela fé, pela esperança ou pela caridade, consolam-se e desesperam-se, creem e descrêem, tímidos, irritadiços e hesitantes.

Quando a verdade, porém, brilha diante deles, revelando-lhes a real condição em que se encontram, costumam fugir apressados, em busca de esconderijos, nos quais possam cultivar a ilusão.

(Do livro "JESUS NO LAR", Neio Lúcio, psicografia de Chico Xavier)

terça-feira, 17 de maio de 2016

O FUTURO

E não mais ensinará cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: — Conhece o Senhor! porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior.” — PAULO (Hebreus 8:11)

Quando o homem gravar na própria alma os parágrafos luminosos da Divina Lei, o companheiro não repreenderá o companheiro, o irmão não denunciará outro irmão.
O cárcere cerrará suas portas, os tribunais quedarão em silêncio.
Canhões serão convertidos em arados, homens de armas volverão à sementeira do solo.
O ódio será expulso do mundo, as baionetas repousarão.
As máquinas não vomitarão chamas para o incêndio e para a morte, mas cuidarão pacificamente do progresso planetário.
A justiça será ultrapassada pelo amor.
Os filhos da fé não somente serão justos, mas bons, profundamente bons.

A prece constituir-se-á de alegria e louvor e as casas de oração estarão consagradas ao trabalho sublime da fraternidade suprema.
A pregação da Lei viverá nos atos e pensamentos de todos, porque o Cordeiro de Deus terá transformado o coração de cada homem em tabernáculo de luz eterna, em que o seu Reino Divino resplandecerá para sempre.

(Do livro PÃO NOSSO, Emmanuel, psicografia de Chico Xavier)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

O NÃO E A LUTA



Seja o teu falar: sim, sim; não, não.”

Ama, de acordo com as lições do Evangelho,
mas não permitas que o teu amor se converta em grilhão,
impedindo-te a marcha para a vida superior.
Ajuda a quantos necessitam de tua cooperação,
entretanto, não deixes que o teu amparo possa criar perturbações e vícios para o caminho alheio.
Atende com alegria ao que te pede um favor,
contudo, não cedas à leviandade e à insensatez.
Abre portas de acesso do bem estar aos que te cercam,
mas não olvides a educação dos companheiros para a felicidade real.
Cultiva a delicadeza e a cordialidade, no entanto,
sê leal e sincero em tuas atitudes.

O “sim” pode ser muito agradável em todas as situações,
 todavia, o “não”, em determinados setores da luta humana, é mais construtivo.
Satisfazer a todas as requisições do caminho é perder tempo e, por vezes, a própria vida.
Tanto quanto o “sim” deve ser pronunciado sem incenso bajulatório,
O “não” deve ser dito sem aspereza.
Muita vez, é preciso contrariar para que o auxílio legítimo se não perca;
urge reconhecer, porém, que a negativa salutar jamais perturba.
O que dilacera é o tom contundente no qual é vazada.
As maneiras, na maior parte das ocasiões, dizem mais que as palavras.
“Seja o vosso falar: sim, sim; não, não”, recomenda o Evangelho.
Para concordar ou recusar, todavia, ninguém precisa ser de mel ou de fel.

Bastará lembrarmos que Jesus é o Mestre e o Senhor não só pelo que faz, mas também pelo que deixa de fazer.

(Do livro PÃO NOSSO, Emmanuel, psicografia de Chico Xavier, FEB)

segunda-feira, 2 de maio de 2016

ESTÁS PREOCUPADO?



Estás Preocupado?
É compreensível que te surpreendas em estado de preocupação, quando te defrontes com os diversos desafios do teu cotidiano.
Não será tarefa simplista o ter que dar conta dos quefazeres domésticos, associados aos da profissão e do convívio social.
Realmente, concebe-se que são tantas coisas a pesar sobre o teu sentimento, sobre os teus pensamentos, sobre o teu humor, que, vez que outra, percebes que foste invadido por ondas de preocupações, para o que abriste as portas morais.
Entretanto, vale parar um pouco e meditar acerca desse fenômeno.
Quando te preocupas, passas a dispender largas quotas das tuas energias na direção do objeto da tua preocupação.
Se a causa é válida, converge a preocupação em ação positiva e benfazeja, ao invés de te manteres paralisado à frente do desafio.
Se o móvel da preocupação não tiver a marca do legítimo valor, se o teu estado psicológico prende-se ao desejo de posse, ao ciúme, à falta de fé em Deus ou a qualquer capricho nocivo à saúde da alma, é chegado o tempo de, à custa dos necessários esforços, te desligares dessa sintonia, que te irá minando o mundo íntimo, sem que encontres solução, podendo escorregar para valões de desespero, mágoa, ódio ou indiferença, ou em estado extremo, podendo impulsionar-te para o crime, que tem variado espectro para as almas lúcidas que conhecem, ainda que por simples informações, as orientações das Leis Divinas.
Desse modo, estuda com clareza as fontes e motivos das tuas preocupações, considerando com o Celeste Guia que “a cada dia já basta o seu mal.”
Na certeza de que estás no mundo a fim de aprender, crescer e amar, nos roteiros da felicidade, não te permitas sucumbir ante problemas de saúde, financeiros, mal-entendidos ou familiares. Aprende a resolver, um após outro, os teus problemas e, na certeza de que o tempo é o fator de resolução de todos os enigmas, entrega as tuas preocupações ao Criador e marcha adiante aguardando a luz do novo dia, que sempre brilha após as noites de horror e sombras.
Não te deixes aturdir pelas exageradas preocupações, trabalhando com valor e afinco o cerne de ti mesmo.

 (Mensagem do Espírito Camillo, psicografada por Raul Teixeira)

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O BOM LADRÃO



   Alguns dias antes da prisão do Mestre, os discípulos, nas suas discussões naturais, comentavam o problema da fé, com o desejo desordenado de quantos se atiram aos assuntos graves da vida, tentando, apressadamente, forçar uma solução.
    — Como será essa virtude? De que modo conservá-la-emos intacta no coração? — inquiria Levi, com atormentado pensamento. Tenho a convicção de que somente o homem culto pode conhecer toda a extensão de seus benefícios.
   — Não tanto assim — aventava Tiago, seu irmão —, acredito que basta a nossa vontade, para que a confiança em Deus esteja viva em nós.
   — Mas a fé será virtude para os que apenas desejam? — perguntava um dos filhos de Zebedeu.
   A um canto, como distante daqueles duelos da palavra, Jesus parecia meditar. Em dado instante, solicitado ao esclarecimento, respondeu com suavidade:
   — A fé pertence, sobretudo, aos que trabalham e confiam. Tê-la no coração é estar sempre pronto para Deus. Não importam a saúde ou a enfermidade do corpo, não têm significação os infortúnios ou os sucessos felizes da vida material. A alma fiel trabalha confiante nos desígnios do Pai, que pode dar os bens, retirá-los e restituí-los em tempo oportuno, e caminha sempre com serenidade e amor, por todas as sendas pelas quais a mão generosa do Senhor a queira conduzir.
  — Mas, Mestre — redarguiu Levi, em respeitosa atitude —, como discernir a vontade de Deus, naquilo que nos acontece? Tenho observado grande número de criaturas criminosas que atribuem à Providência os seus feitos delituosos e uma legião de pessoas inertes que classificam a preguiça como fatalidade divina.
   — A vontade de Deus, além da que conhecemos através de sua lei e de seus profetas, através do conselho sábio e das inclinações naturais para o bem, é também a que se manifesta, a cada instante da vida, misturando a alegria com as amarguras, concedendo a doçura ou retirando-a, para que a criatura possa colher a experiência luminosa no caminho mais espinhoso. Ter fé, portanto, é ser fiel a essa vontade, em todas as circunstâncias, executando o bem que ela nos determina e seguindo-lhe o roteiro sagrado, nas menores sinuosidades da estrada que nos compete percorrer.
    — Entretanto — observou Tomé —, creio que essa qualidade excepcional deve ser atributo do espírito mais cultivado, porque o homem ignorante não poderá cogitar da aquisição de semelhante patrimônio.
   O Mestre fitou o apóstolo com amor e esclareceu:
    — Todo homem de fé será, agora ou mais tarde, o irmão dileto da sabedoria e do sentimento; porém, essa qualidade será sempre a do filho leal ao Pai que está nos Céus.
   O discípulo sorriu e obtemperou:
   — Todavia, quem possuirá no mundo lealdade perfeita como essa?
    — Ninguém pode julgar em absoluto — disse o Cristo com bondade —, a não ser o critério definitivo de Deus; mas, se essa conquista da alma não é comum às criaturas de conhecimento parco ou de posição vulgar, é bem possível que a encontremos no peito exausto dos mais infelizes ou desclassificados do mundo.
  O apóstolo sorriu desapontado, no seu cepticismo de homem prático. Dentro em pouco, a pequena comunidade se dispersava, à aproximação do manto escuro da noite.



  Na hora sombria da cruz, disfarçado com vestes diferentes, Tomé acompanhou, passo a passo, o corajoso Messias.
   Estranhas reflexões surgiam-lhe no espírito. Sua razão de homem do mundo não lhe proporcionava elementos para a compreensão da verdade toda. Onde estava aquele Deus amoroso e bom, sobre quem repousavam as suas esperanças? Seu amor possuiria apenas uma cruz para oferecer ao filho dileto? Por que motivo não se rasgavam os horizontes, para que as legiões dos anjos salvassem do crime da multidão inconsciente e furiosa o Mestre amado? Que Providência era aquela que se não manifestava no momento oportuno? Durante três anos consecutivos haviam acreditado que Deus guardava todo o poder sobre o mundo; não conseguia, pois, explicar como tolerava aquele espetáculo sangrento de ser o seu enviado, amorável e carinhoso, conduzido para o madeiro infamante, sob impropérios e pedradas. O prêmio do Cristo era então aquele monte da desolação, reservado aos criminosos?
  Ansioso, o discípulo contemplou aquelas mãos que haviam semeado o bem e o amor, agora agarradas à cruz como duas flores ensanguentadas. A fronte aureolada de espinhos era uma nota irônica na sua figura sublime e respeitável. Seu peito tremia, ofegante, seus ombros deveriam estar pisados e doloridos. Valera a pena haver distribuído, entre os homens, tantas graças do Céu? O malfeitor que assaltava o próximo era, agora, a seu ver, o dono de mais duradouras compensações.
   Tomé se sentia como que afogado. Desejou encontrar algum dos companheiros para trocar impressões, entretanto, não viu um só deles. Procurou observar se os beneficiados pelo Messias assistiam ao seu martírio humilhante, na hora final, lembrando de que ainda na véspera se mostravam tão reconhecidos e felizes com a sua santa presença. A ninguém encontrou. Aqueles leprosos que haviam recuperado o dom precioso da saúde, os cegos que conseguiram rever o quadro caricioso da vida, os aleijados que haviam cantado hosanas à cura de seus corpos defeituosos, estavam agora ausentes, fugiam ao testemunho. Valera a pena praticar o bem? O apóstolo, mergulhado em dolorosos e sombrios pensamentos, deixava absorver-se em estranhas interrogações.
   Reparou que em torno da cruz estrugiam gargalhadas que reportavam ironias. O Mestre, contudo, guardava no semblante uma serenidade inexcedível. De vez em quando, seu olhar se alongava por sobre a multidão, como querendo descobrir um rosto amigo.
  Sob as vociferações da turba amotinada, a Tomé parecia-lhe escutar ainda o ruído inolvidável dos cravos do suplício. Enquanto as lanças e os vitupérios se cruzavam nos ares, fixou os dois malfeitores que a justiça do mundo havia condenado à pena última. 10 Aproximou-se da cruz e notou que o Messias punha nele os olhos amorosos, como nos tempos mais tranquilos. Viu que um suor empastado de sangue lhe corria do rosto venerável, misturando-se com o vermelho das chagas vivas e dolorosas. Com aquele olhar inesquecível, Jesus lhe mostrou as úlceras abertas, como o sinal do sacrifício. Penosa emoção dominou a alma sensível do discípulo. Olhos enevoados de pranto, recordou os dias radiosos do Tiberíades. 
   As cenas mais singelas do apostolado ressurgiam ante a sua imaginação. Subitamente, lembrou-se da tarde em que haviam comentado o problema da fé, parecendo-lhe ouvir ainda as elucidações do Mestre, com respeito à perfeita lealdade a Deus. Reflexões instantâneas lhe empolgaram o coração. Quem teria sido mais fiel ao Pai do que Jesus? Entretanto, a sua recompensa era a cruz do martírio! Absorto em singulares pensamentos, o apóstolo observou que o Messias lançava agora os olhos enternecidos sobre um dos ladrões, que o fixava afetuosamente.
   Nesse instante, percebeu que a voz débil do celerado se elevava para o Mestre, em tom de profunda sinceridade:
— Senhor! — disse ele, ofegante — lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino!…
O discípulo reparou que Jesus lhe endereçava, então, o olhar caricioso, ao mesmo tempo que aos seus ouvidos chegavam os ecos de sua palavra suave e esclarecedora:
— Vês, Tomé? Quando todos os homens da lei não me compreenderam e quando os meus próprios discípulos me abandonaram, eis que encontro a confiança leal no peito de um ladrão!…



  Inquieto, o discípulo meditou na lição recebida e, horas a fio, contemplou o espetáculo doloroso, até ao momento em que o Mestre foi retirado da cruz da derradeira agonia. Começava, então, a compreender a essência profunda de seus ensinos imortais.
  Como se o seu Espírito fora transportado ao cume de alto monte, pareceu-lhe observar daí a pesada marcha humana. Viu conspícuos homens da lei, sobraçando os livros divinos; doutores enfatuados de orgulho passavam eretos; exibindo os mais complicados raciocínios. Homens de convicções sólidas integravam o quadro, entremostrando a fisionomia satisfeita. Mulheres vaidosas ou fanáticas lá iam, igualmente, revelando seus títulos diletos. Em seguida, vinham os diretamente beneficiados pelo Mestre Divino. Era a legião dos que se haviam levantado da miséria física e das ruínas morais. Eram os leprosos de Jerusalém, os cegos de Cafarnaum,  os doentes de Sídon,  os seguidores aparentemente mais sinceros, ao lado dos próprios discípulos que desfilavam, envergonhados, e se dispersavam, indecisos, na hora extrema.
   Possuído de viva emoção, Tomé se pôs a chorar intimamente. Foi então que presumiu escutar uns passos delicados e quase imperceptíveis. Sem poder explicar o que se dava, julgou divisar, a seu lado, a inolvidável figura do Mestre, que lhe colocou as mãos leves e amigas sobre a fronte atormentada, repetindo-lhe ao coração as palavras que lhe havia endereçado da cruz:
   — Vês, Tomé? Quando todos os homens da lei não me compreenderam e os próprios discípulos me abandonaram, eis que encontro a confiança leal no peito de um ladrão!

(do livro "BOA NOVA", Humberto de Campos, Chico Xavier, FEB)


quinta-feira, 24 de março de 2016

QUANDO O AMOR SE EXPRESSA


Quando se vê uma mulher grávida, quase sempre se pergunta se ela sabe se é menino ou menina.
E quando ela ainda não tem essa certeza, responde: Não importa o que seja, desde que seja perfeito, com saúde.
Este é o anseio de todos os pais. Assim também para aquele casal belga, na flor dos seus vinte anos.
Os filhos chegaram um a um, sadios e tudo transcorria bem. Até que sua caçula Stephanie, aos três meses, foi vítima da síndrome da morte súbita na infância.
Somente a fé cristã fortaleceu o mundo abalado daquela família. Nada poderia trazer de volta sua filha, mas eles se deram conta de quão preciosa era a vida de uma criança.
Tomaram uma resolução. Não foi nada de momento. Deixaram passar quatro anos. Christiane deu a luz mais um filho.
Então, resolveram que podiam acolher em sua casa e amar uma criança que não tivesse família. Que não tivesse quem a amasse.
Ao se inscreverem no programa de adoção, seus nomes ficaram como os últimos de uma lista interminável.
Afinal, eles eram pais de três crianças, saudáveis e felizes.
Mas, eles receberam Hélène, de quatro anos. A pequena menina negra era cheia de vida e se uniu aos filhos do casal: Davi, sete anos, Benoît, cinco e Nicolas, um ano.
Em seguida, um menino indiano, com sequelas de poliomielite, chegou. Após várias cirurgias, verificou-se que ele nunca voltaria a andar com suas próprias pernas.
E vieram os outros, do Brasil, da Colômbia, de Camarões, do Haiti.
Dezenove filhos. Onze adotados. Sete com deficiências físicas ou mentais, ou ambas.
Todos os dias letivos, pouco depois das quatro da tarde, ônibus e carros chegavam de variadas escolas e deixavam crianças na casa dos Boldos.
Correndo, mancando ou rolando em cadeiras de rodas, elas entravam em casa para vasculhar a cozinha à procura de petiscos, procurando mãe e pai para darem um abraço.
O tempo passou... Os filhos mais velhos já têm suas vidas. Casados, com suas profissões, não perderam o contato com a família.
Christiane, a mãe, tem uma fórmula especial para definir a própria família: Ela foi construída pedra por pedra.
Uma criança era adotada, outra nascia. As que estavam conosco achavam que essa era a ordem natural da vida.
A família Boldo criou, na Bélgica, uma fundação com o propósito de encontrar lares adotivos para crianças órfãs com deficiência.
A média mensal inicial era encontrar lares para uma ou duas crianças.
Plenamente envolvidos nesse trabalho, os Boldo, em vinte anos, conduziram quatrocentas e dez crianças com deficiências, de vinte países diferentes, a lares de famílias belgas.
E dizer que tudo começou pela dolorosa perda de uma filha de apenas três meses de idade.

O amor é expressão superior que motiva o ser a altos cumes.
Quando se apresenta, oferece condições de superação de toda dor e permite ao sofredor vislumbrar o sol para além da cortina das lágrimas.
Mais do que isso: confere-lhe condições de encontrar almas mais sofridas que ele próprio e estender as mãos para ajudá-las.

(Redação do Momento Espírita, com base no artigo Um lar para os filhos de ninguém, de Lawrence Elliott,  da Revista Seleções Reader’s Digest, de janeiro/2004)